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O título explica.
segunda-feira, abril 26, 2004
Ócio planaltino
[Texto de 15 de junho de 2000]
Há os dias como hoje, em que não se tem rigorosamente nada para fazer, desde
a hora em que se abre o olho até a que se fecha. Logo de manhã, já sabendo
que ia ser um dia desses, fiquei na cama até começar a ficar anquilosado,
lendo um livro sobre aceleradores de partículas e tentando acompanhar os
cálculos -- logo eu, que mal sei ler números em notação científica. Quando
comecei a ficar com cãibras, fui para a varanda dos fundos, trouxe o
computador, abri o Excel e a calculadora científica, fiz contas, anotei tudo
e no fim continuei sem entender nada. Já eram sete e meia e a serra Matutina
já estava todinha ensolarada, a irmã do Tilapa, a prendada, veio trazer pão
e biscoitos de queijo acabados de fazer, passei um café e fui me sentar no
banco de pedra da calçada esperando passar algum conhecido com um cigarro.
Passou foi o Walter, o que era da Emater de Goiânia e que fez o plano todo
da minha plantação de guariroba lá na Várzea dos Lobos. Entrou, sentou pra
tomar café e começou a contar a história do gerente dele que fugiu com a
filha menor do Anísio irmão do seu Tamiro ali da Pratinha e "homem de
confiança" do Olympio Jaime. Já mandou trazer outro gerente do Piauí, porque
esse, diz ele, "n'demor'um nadica aparece boianno no rio das Arma c'as parte
fartanno".
Fui com ele buscar tomate na fazenda do Grilo lá perto de Corumbá. No
caminho, paramos pra comprar um garrafão de cachaça no Basto e pra comer uma
quenga na zona -- o bar do Jatobá, que de noite tem uma clientela
seletíssima formada por todos os fazendeiros de Pirenópolis e todas as
filhas dos fazendeiros de Corumbá (e o puteiro de Corumbá é ao contrário,
dizem), de manhã serve um caldo grosso de milho verde com frango que bem
feito é de arrancar lágrimas dos olhos do tanto que é bom e que sabe-se lá
por que cargas d'água é chamado de quenga. Lá ficamos sabendo de fonte
segura que o Stefan, aquele suíço finésimo que a Sandra jura que é peão,
chegou no Jatobá, encheu o rabo de cachaça, puxou briga logo com o Genival
da Bonsucesso, que anda calmo desde que o filho mais velho morreu junto com
a mulher do senhor presidente da câmara num acidente de automóvel voltando
bêbado da festa de Lagolândia -- e a digníssima senhora foi encontrada nas
ferragens vestindo apenas um colar que o marido trouxe pra ela do Rio --
enfim, que anda calmo mas nem por isso é obrigado a ouvir desaforo de gringo
bebum, levou uma sova de correia e foi dormir na cadeia. Na de Jaranápolis,
lá do outro lado do município a quase cem quilômetros daqui em estrada de
chão, para, segundo o delegado, ter tempo de esfriar a cabeça antes de
chegar em casa quando acordar. E, segundo o Jacinto do Cartório que estava
lá comendo uma quenga também, "pra ficá mais perto da fazenna q'da
cas'd'dona Sandra e n'armá mais encrenca p'r aqui".
Pouco antes da entrada da fazenda do Grilo, encontramos com o Madueño vindo
de Corumbá. Como a gente sabia que ele tinha acabado de conversar com o
prefeito porque já tinham dito pra nós no Jatobá que ele tinha passado por
lá logo cedinho pra ir atrás do homem na outra prefeitura -- o prefeito de
Pirenópolis largou da mulher e foi morar com a dona do cartório de Corumbá e
agora despacha os assuntos da prefeitura de lá mesmo, do cartório, em
Corumbá: se você tem um assunto com o prefeito, pega o seu carro se tiver um
ou o ônibus se não e vai até lá --, paramos pra conversar mais um pouco e
saber das obras da ponte do Carmo, que está interditada há duas semanas (diz
o tio da Dora que por culpa dela) e até agora necas. E parece que até
outubro a restauração não sai. O prefeito é o mesmo que da outra vez que
morei aqui, o Luiz Armando, que fechou as duas pistas da única estrada
asfaltada que saía da cidade, forçando todo o mundo a passar por dentro da
fazenda do seu Emilinho. Quando eu perguntei porque ele não fechava uma
pista de cada vez, ele respondeu: "Muito esperto. E quem ia notar que eu
estava fazendo a obra?". Até outubro a Mariângela, que tem restaurante do
outro lado da ponte, vai à falência. O Madueño aproveitou a parada e o
desvio para ir conosco até uma parte do caminho, comprar polvilho doce da
dona Engrácia, na fazenda do Zé Reis. E nós fomos carregar tomate. Trinta e
sete caixas e três cafés depois, voltamos a Pirenópolis, direto para a
padaria do Apolônio comer a famosa dupla um: bauru e suco de laranja, um
real, mas só de segunda a sexta. Fim-de-semana, com a cidade cheia de
turista, o preço dobra. Mais um cafezinho no Boim, onde ficamos sabendo pela
Rádio Orelha que o suíço tinha sido solto em Jaranápolis e que tinha ido
direitinho prà casa dele, na fazenda dela. Assim, respiramos todos
aliviados, ficam estabelecidos os territórios: o peão na roça, a dama na
cidade. Aproveitei pra passar no cartório pra ver se tinha chegado a segunda
via da escritura da minha terra na Várzea dos Lobos e encontrei o Zé Reis,
chegando de Brasília, esbaforido, contando que a filha do Sérgio Amaral, meu
ex-vizinho, tinha sido presa com sabe-se lá quantas centenas de doses de
ecstasy, e que o Sérgio tinha vindo de Londres pra acompanhar o caso e
estava em Pirenópolis pra ficar longe da imprensa e vamos jantar na casa
dele, hoje à noite. Oba, boca livre no Sérgio, vocês precisavam ver a adega
dele. O Zé Reis anda me cantando pr'eu entrar prà chapa dele na eleição da
nova diretoria da SOAP, da qual eu fui o primeiro secretário-geral em 1993,
quando ela foi fundada. A SOAP anda importante, conseguiu as verbas para a
restauração da matriz, do Theatro Pyrenópolis, do cine Pyreneus e agora da
ponte do Carmo. Eu disse que só entro se o Evandro Ayer cair fora, de
preferência com censura pública pelo rolo do dinheiro da Funatura pro Parque
Natural dos Pireneus, e o Zé Reis, que não gosta do Evandrão mas gosta ainda
menos de briga, desconversou.
Do cartório fui prà farmácia, me pesar. Oitenta e dois quilos e quatrocentos
gramas, oba! Cheguei aqui com oitenta e nove e seiscentos. Estava lá sentado
o velhinho húngaro um-sete-um da "bioterapia" dando conselhos sobre como
emagrecer e chegar aos oitenta e oito anos como ele, provocando orgasmos
múltiplos nas mulheres que fazem fila pra dar pra ele, claro que lá nos
cafundós de Sobradinho onde ele mora, porque aqui só vejo o velho na
farmácia jogando conversa fora e no restaurante natureba da rua do Carmo
reclamando dos preços e da aposentadoria. A mulher do Pinhé da farmácia
ouviu a conversa e gritou lá do fundo: "Mas, seu Magiar, o seu trem ainda
sobe?", e seu Magiar deu risada e respondeu: "Nem enfiando uma mangueira no
rabo e soprando forte -- meu negócio é língua, mia fia!". Dali fui ouvir o
noticiário em francês da Rádio Gaza no ondas-curtas do Omar palestino (a
família dele anda todinha a caráter e ele anda com o tapetinho de oração pra
cima e pra baixo na cidade, mas, isto sendo parte do Brasil e ele estando
aqui, já contribui generosamente prà Festa do Divino e acha bão ir prum
Pouso de Folia fazer farra), tomei um chazinho de menta com ele e com o
Suleiman irmão dele, rimos mais um pouquinho da história do suíço, marcamos
de ir comer quibe e beber arak (só eu e o Omar: o Suleiman inda não bebe
álcool) no bar do Ricardo de Anápolis amanhã depois do jogo do Palmeiras. O
Suleiman me arrastou pra tomar café com pão de queijo na dona Sebastiana, e
quando chegamos o Reinaldo estava saindo pra ir à minha casa falar do
projeto de programação visual das lavras da Vagafogo: declinei participar,
não quero papo com o Evandrão.
Fomos prà minha casa, o Reinaldo e eu, que ele precisava falar comigo em
particular sobre a Mariângela. Rolo, como sempre. Quando chegamos, a irmã do
Tilapa tinha acabado de deixar o meu almoço: arroz, feijão, costelinha de
porco com muita cebola, cenoura refogada, batata-doce frita crocante, salada
de tomate, bananada com queijo de cabra: todo dia muda, setenta e cinco
reais por mês, e sobra prà janta ou dá pra convidar alguém. Durante o almoço
apareceu o Arnaldo Lobato, o Índio, procurando o Reinaldo. A cidade inteira
sabe que se ele não estiver em casa ou na Mari, está aqui (me peçam pra
contar um dia a história de dona Flor e seus dois ex-maridos).
Já passa do meio-dia. Mais um cafezinho, um cigarrinho e estou pronto para a
tarde de ócio. Ô vida estressante!
Há os dias como hoje, em que não se tem rigorosamente nada para fazer, desde
a hora em que se abre o olho até a que se fecha. Logo de manhã, já sabendo
que ia ser um dia desses, fiquei na cama até começar a ficar anquilosado,
lendo um livro sobre aceleradores de partículas e tentando acompanhar os
cálculos -- logo eu, que mal sei ler números em notação científica. Quando
comecei a ficar com cãibras, fui para a varanda dos fundos, trouxe o
computador, abri o Excel e a calculadora científica, fiz contas, anotei tudo
e no fim continuei sem entender nada. Já eram sete e meia e a serra Matutina
já estava todinha ensolarada, a irmã do Tilapa, a prendada, veio trazer pão
e biscoitos de queijo acabados de fazer, passei um café e fui me sentar no
banco de pedra da calçada esperando passar algum conhecido com um cigarro.
Passou foi o Walter, o que era da Emater de Goiânia e que fez o plano todo
da minha plantação de guariroba lá na Várzea dos Lobos. Entrou, sentou pra
tomar café e começou a contar a história do gerente dele que fugiu com a
filha menor do Anísio irmão do seu Tamiro ali da Pratinha e "homem de
confiança" do Olympio Jaime. Já mandou trazer outro gerente do Piauí, porque
esse, diz ele, "n'demor'um nadica aparece boianno no rio das Arma c'as parte
fartanno".
Fui com ele buscar tomate na fazenda do Grilo lá perto de Corumbá. No
caminho, paramos pra comprar um garrafão de cachaça no Basto e pra comer uma
quenga na zona -- o bar do Jatobá, que de noite tem uma clientela
seletíssima formada por todos os fazendeiros de Pirenópolis e todas as
filhas dos fazendeiros de Corumbá (e o puteiro de Corumbá é ao contrário,
dizem), de manhã serve um caldo grosso de milho verde com frango que bem
feito é de arrancar lágrimas dos olhos do tanto que é bom e que sabe-se lá
por que cargas d'água é chamado de quenga. Lá ficamos sabendo de fonte
segura que o Stefan, aquele suíço finésimo que a Sandra jura que é peão,
chegou no Jatobá, encheu o rabo de cachaça, puxou briga logo com o Genival
da Bonsucesso, que anda calmo desde que o filho mais velho morreu junto com
a mulher do senhor presidente da câmara num acidente de automóvel voltando
bêbado da festa de Lagolândia -- e a digníssima senhora foi encontrada nas
ferragens vestindo apenas um colar que o marido trouxe pra ela do Rio --
enfim, que anda calmo mas nem por isso é obrigado a ouvir desaforo de gringo
bebum, levou uma sova de correia e foi dormir na cadeia. Na de Jaranápolis,
lá do outro lado do município a quase cem quilômetros daqui em estrada de
chão, para, segundo o delegado, ter tempo de esfriar a cabeça antes de
chegar em casa quando acordar. E, segundo o Jacinto do Cartório que estava
lá comendo uma quenga também, "pra ficá mais perto da fazenna q'da
cas'd'dona Sandra e n'armá mais encrenca p'r aqui".
Pouco antes da entrada da fazenda do Grilo, encontramos com o Madueño vindo
de Corumbá. Como a gente sabia que ele tinha acabado de conversar com o
prefeito porque já tinham dito pra nós no Jatobá que ele tinha passado por
lá logo cedinho pra ir atrás do homem na outra prefeitura -- o prefeito de
Pirenópolis largou da mulher e foi morar com a dona do cartório de Corumbá e
agora despacha os assuntos da prefeitura de lá mesmo, do cartório, em
Corumbá: se você tem um assunto com o prefeito, pega o seu carro se tiver um
ou o ônibus se não e vai até lá --, paramos pra conversar mais um pouco e
saber das obras da ponte do Carmo, que está interditada há duas semanas (diz
o tio da Dora que por culpa dela) e até agora necas. E parece que até
outubro a restauração não sai. O prefeito é o mesmo que da outra vez que
morei aqui, o Luiz Armando, que fechou as duas pistas da única estrada
asfaltada que saía da cidade, forçando todo o mundo a passar por dentro da
fazenda do seu Emilinho. Quando eu perguntei porque ele não fechava uma
pista de cada vez, ele respondeu: "Muito esperto. E quem ia notar que eu
estava fazendo a obra?". Até outubro a Mariângela, que tem restaurante do
outro lado da ponte, vai à falência. O Madueño aproveitou a parada e o
desvio para ir conosco até uma parte do caminho, comprar polvilho doce da
dona Engrácia, na fazenda do Zé Reis. E nós fomos carregar tomate. Trinta e
sete caixas e três cafés depois, voltamos a Pirenópolis, direto para a
padaria do Apolônio comer a famosa dupla um: bauru e suco de laranja, um
real, mas só de segunda a sexta. Fim-de-semana, com a cidade cheia de
turista, o preço dobra. Mais um cafezinho no Boim, onde ficamos sabendo pela
Rádio Orelha que o suíço tinha sido solto em Jaranápolis e que tinha ido
direitinho prà casa dele, na fazenda dela. Assim, respiramos todos
aliviados, ficam estabelecidos os territórios: o peão na roça, a dama na
cidade. Aproveitei pra passar no cartório pra ver se tinha chegado a segunda
via da escritura da minha terra na Várzea dos Lobos e encontrei o Zé Reis,
chegando de Brasília, esbaforido, contando que a filha do Sérgio Amaral, meu
ex-vizinho, tinha sido presa com sabe-se lá quantas centenas de doses de
ecstasy, e que o Sérgio tinha vindo de Londres pra acompanhar o caso e
estava em Pirenópolis pra ficar longe da imprensa e vamos jantar na casa
dele, hoje à noite. Oba, boca livre no Sérgio, vocês precisavam ver a adega
dele. O Zé Reis anda me cantando pr'eu entrar prà chapa dele na eleição da
nova diretoria da SOAP, da qual eu fui o primeiro secretário-geral em 1993,
quando ela foi fundada. A SOAP anda importante, conseguiu as verbas para a
restauração da matriz, do Theatro Pyrenópolis, do cine Pyreneus e agora da
ponte do Carmo. Eu disse que só entro se o Evandro Ayer cair fora, de
preferência com censura pública pelo rolo do dinheiro da Funatura pro Parque
Natural dos Pireneus, e o Zé Reis, que não gosta do Evandrão mas gosta ainda
menos de briga, desconversou.
Do cartório fui prà farmácia, me pesar. Oitenta e dois quilos e quatrocentos
gramas, oba! Cheguei aqui com oitenta e nove e seiscentos. Estava lá sentado
o velhinho húngaro um-sete-um da "bioterapia" dando conselhos sobre como
emagrecer e chegar aos oitenta e oito anos como ele, provocando orgasmos
múltiplos nas mulheres que fazem fila pra dar pra ele, claro que lá nos
cafundós de Sobradinho onde ele mora, porque aqui só vejo o velho na
farmácia jogando conversa fora e no restaurante natureba da rua do Carmo
reclamando dos preços e da aposentadoria. A mulher do Pinhé da farmácia
ouviu a conversa e gritou lá do fundo: "Mas, seu Magiar, o seu trem ainda
sobe?", e seu Magiar deu risada e respondeu: "Nem enfiando uma mangueira no
rabo e soprando forte -- meu negócio é língua, mia fia!". Dali fui ouvir o
noticiário em francês da Rádio Gaza no ondas-curtas do Omar palestino (a
família dele anda todinha a caráter e ele anda com o tapetinho de oração pra
cima e pra baixo na cidade, mas, isto sendo parte do Brasil e ele estando
aqui, já contribui generosamente prà Festa do Divino e acha bão ir prum
Pouso de Folia fazer farra), tomei um chazinho de menta com ele e com o
Suleiman irmão dele, rimos mais um pouquinho da história do suíço, marcamos
de ir comer quibe e beber arak (só eu e o Omar: o Suleiman inda não bebe
álcool) no bar do Ricardo de Anápolis amanhã depois do jogo do Palmeiras. O
Suleiman me arrastou pra tomar café com pão de queijo na dona Sebastiana, e
quando chegamos o Reinaldo estava saindo pra ir à minha casa falar do
projeto de programação visual das lavras da Vagafogo: declinei participar,
não quero papo com o Evandrão.
Fomos prà minha casa, o Reinaldo e eu, que ele precisava falar comigo em
particular sobre a Mariângela. Rolo, como sempre. Quando chegamos, a irmã do
Tilapa tinha acabado de deixar o meu almoço: arroz, feijão, costelinha de
porco com muita cebola, cenoura refogada, batata-doce frita crocante, salada
de tomate, bananada com queijo de cabra: todo dia muda, setenta e cinco
reais por mês, e sobra prà janta ou dá pra convidar alguém. Durante o almoço
apareceu o Arnaldo Lobato, o Índio, procurando o Reinaldo. A cidade inteira
sabe que se ele não estiver em casa ou na Mari, está aqui (me peçam pra
contar um dia a história de dona Flor e seus dois ex-maridos).
Já passa do meio-dia. Mais um cafezinho, um cigarrinho e estou pronto para a
tarde de ócio. Ô vida estressante!
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