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O título explica.
segunda-feira, abril 26, 2004
Figuras I
[Texto de 14 de junho de 2000]
O Biti é mecânico especializado. Só conserta Fusca e Brasília. Como mais de metade da frota de automóveis de Pirenópolis é composta de Fuscas e Brasílias, a clientela é abundante e constante. Como mais da metade dos donos de Fusca e Brasília não tem um tostão furado, o Biti é também um dos maiores credores da cidade. A gente passa ali pela rua Nova, ao lado da porta dos fundos da casa da Christiane, e o Biti está sentado na frente de um monte de motores desmontados, na calçada, na oficina, pendurados no umbuzeiro, do outro lado da rua na sombra da galeria do Elim Dutra, que é também diretor da Agência Brasileira de Cooperação e embaixador nomeado em Estocolmo. Deixar um Fusca pra consertar no Biti é ter a certeza de ele voltar com as peças todas trocadas, porque ele nunca sabe qual peça é de qual motor. Mas, em compensação, pergunta pra ele em que ano o Roberto Carlos gravou Gato Preto: o Biti tem todos os discos do Roberto Carlos, e passa o dia ouvindo. Só ouve Roberto Carlos. Diz que um dia a mulher dele, logo depois do casamento, comprou um disco do Jerry Adriani e trouxe pra casa, toda contente. Biti disse pra ela: "se você for me trair, faz longe de casa e não me deixa saber. Mas trazer macho pra dentro da minha casa eu não admito". E mandou ela devolver o disco.
O Biti também raramente conversa com alguém diretamente. O negócio dele é dar pitaco em conversa alheia. Das sete da manhã, quando ele abre o barraco, até meio-dia, quando entra pra almoçar, ele fica ali, escarafunchando os motores com um pito apagado no canto da boca, dando um palpite aqui, fazendo um trocadilho ali, gritando uma safadeza qualquer, em geral ligada às práticas sexuais da vítima, para quem passa na rua. Mas, pra ouvir ele falar sem parar, é só perguntar do tempo que ele era locutor da "rádio" Pirenópolis, um alto-falante no telhado da prefeitura, nos anos cinqüenta. Nem motor fundido faz ele calar a boca.
Meio-dia, é o famoso almoço do Biti. Tá sem comida em casa, com preguiça de cozinhar, com vontade de variar? É só conseguir engatar uma conversa na porta do Biti um pouco antes do meio-dia. Quando a Dete mulher dele chama prà mesa, quem estiver por perto é intimado a entrar e comer, e ai de quem disser não. A Dete é uma das cozinheiras mais famosas da cidade, e o empadão dela é disputado a tapa durante a festa do Morro, no plenilúnio de julho. Depois do almoço, o Biti deita na rede pra fumar o pito que estava no canto da boca desde as sete, toma uma cachacinha pra animar e fala mal da vida alheia até a uma e meia. Depois, volta pros motores.
O Biti é mecânico especializado. Só conserta Fusca e Brasília. Como mais de metade da frota de automóveis de Pirenópolis é composta de Fuscas e Brasílias, a clientela é abundante e constante. Como mais da metade dos donos de Fusca e Brasília não tem um tostão furado, o Biti é também um dos maiores credores da cidade. A gente passa ali pela rua Nova, ao lado da porta dos fundos da casa da Christiane, e o Biti está sentado na frente de um monte de motores desmontados, na calçada, na oficina, pendurados no umbuzeiro, do outro lado da rua na sombra da galeria do Elim Dutra, que é também diretor da Agência Brasileira de Cooperação e embaixador nomeado em Estocolmo. Deixar um Fusca pra consertar no Biti é ter a certeza de ele voltar com as peças todas trocadas, porque ele nunca sabe qual peça é de qual motor. Mas, em compensação, pergunta pra ele em que ano o Roberto Carlos gravou Gato Preto: o Biti tem todos os discos do Roberto Carlos, e passa o dia ouvindo. Só ouve Roberto Carlos. Diz que um dia a mulher dele, logo depois do casamento, comprou um disco do Jerry Adriani e trouxe pra casa, toda contente. Biti disse pra ela: "se você for me trair, faz longe de casa e não me deixa saber. Mas trazer macho pra dentro da minha casa eu não admito". E mandou ela devolver o disco.
O Biti também raramente conversa com alguém diretamente. O negócio dele é dar pitaco em conversa alheia. Das sete da manhã, quando ele abre o barraco, até meio-dia, quando entra pra almoçar, ele fica ali, escarafunchando os motores com um pito apagado no canto da boca, dando um palpite aqui, fazendo um trocadilho ali, gritando uma safadeza qualquer, em geral ligada às práticas sexuais da vítima, para quem passa na rua. Mas, pra ouvir ele falar sem parar, é só perguntar do tempo que ele era locutor da "rádio" Pirenópolis, um alto-falante no telhado da prefeitura, nos anos cinqüenta. Nem motor fundido faz ele calar a boca.
Meio-dia, é o famoso almoço do Biti. Tá sem comida em casa, com preguiça de cozinhar, com vontade de variar? É só conseguir engatar uma conversa na porta do Biti um pouco antes do meio-dia. Quando a Dete mulher dele chama prà mesa, quem estiver por perto é intimado a entrar e comer, e ai de quem disser não. A Dete é uma das cozinheiras mais famosas da cidade, e o empadão dela é disputado a tapa durante a festa do Morro, no plenilúnio de julho. Depois do almoço, o Biti deita na rede pra fumar o pito que estava no canto da boca desde as sete, toma uma cachacinha pra animar e fala mal da vida alheia até a uma e meia. Depois, volta pros motores.
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