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O título explica.
segunda-feira, abril 26, 2004
Re: ALELUIA!!!!
[Texto de 20 de junho de 2000]
Olá, Gui,
voltei, mas continuo aqui. Quer dizer, não voltei, estou tentando sair. Ou
seja lá o que for.
Minhas voltas dependem do humor do vizinho que tem telefone, e do quanto ele
bebeu na noite anterior. O telefone que o Tilapa disse que ia me arrumar não
pode ser tirado do endereço onde está porque o assinante morreu e os
herdeiros não podem mexer em nada enquanto o inventário não acabar
(engraçado, quando a minha mãe morreu, o marido português dela pegou tudo o
que eles tinham, passou nos cobres e foi viver em Morro de São Paulo --
cadê o tal do inventário? Porque é que ele pode e o meu telefone não?). O
Djair pagou as prestações atrasadas do telefone dele e disse que, quando a
linha fosse religada, ele mandava transferir prà minha casa. Isso foi há
duas semanas e, até hoje, a Telegoiás não se lembrou de religar o telefone.
A mãe do Elísio das Pedras me aluga um telefone, se eu assinar um contrato
de um ano e pagar um salário mínimo por mês -- tô quase aceitando. Mas a
Telegoiás prometeu que vai instalar dois mil telefones na cidade até fins de
agosto, e o meu está nessa fila desde 1994, deve ser incluído no pacote.
Desde 1991 que não instalam uma única linha aqui.
Quem manda? Tanto lugar pra morar...
Mas ainda resta uma esperança. O Castelo passou aqui em casa e disse que vai
sair da casa dele e que se eu quiser ficar com ela é só dizer. A casa dele
não tem nenhuma jaboticabeira, mas tem mais mangueiras que a minha.
E-tem-te-le-fo-ne! Daqueles que fazem trintrim. O único problema é que fica
na rua Direita, a três casas da casa da Christiane, a morena linda do zóio
cor de mé que cometeu a imprudência de casar comigo quando morei aqui em
1993-94. E o Jãozico Lopes, um goianão chucro dimetrinoventa que é o atual
namorado da moça, já mandou avisar que se me vir rondando a rua Direita vai
servir o meu pinto fatiado misturado na ração da criação de filas dele. E
tendo em vista o número dos cães e o tamanho relativo das partes envolvidas,
acho que eles nem iam sentir a diferença na dieta, ó fim inglório!
E a Dora, mulher do Romeu padeiro da rua dos Pireneus, disse que vai tirar o
telefone que ela alugou pro tio que mora na rua do Carmo com a mulher e os
oito filhos mas tem amante e três filhos na rua Aurora e passar prà (com
acento grave, sissinhora Dona Clotilde) minha casa na rua da Prata porque o
Galeão -- o que é casado com a Cristina que é prima da Geni da pousada da
praça do coreto, ao lado da pizzaria do alemão casado com aquela paulista
doida devota de Maria, e sócia do Lionel, uma bicha velha francesa fazedora
de tiaras de noiva -- disse pra ela que o tio dela disse que ela devia ser
proibida de passar na ponte do Carmo porque cada nádega dela pesa mais que
duas carroças de areia do Gerardim Meiometro e a ponte anda meio capenga.
Anteontem, eu vinha subindo a rua Matutina e parei pra perguntar pro padre
Joel, aquele que ameaçou excomungar os donos de farmácia que vendessem
camisinha e mandou arrancar os bancos da praça pra ninguém namorar em frente
à matriz e foi processado pela prefeitura por destruição da propriedade
pública, como é que vai indo a vida na nova paróquia que arrumaram pra ele
em Parede dos Bernardos, um povoado aqui do município que fica a 74 km da
sede, e se por acaso ele não sabia de ninguém com um telefone pra alugar.
Ele começou a me contar a história de como tinha conseguido fechar o único
puteiro do povoado e de como os homens da região adoram ele. A história
estava boa, mas perdi mais da metade, porque vi passar por mim o Stefan
Gaehwiler, um peão suíço fazedor de queijo que mora em Corumbá (a de Goiás,
não a do Pantanal) e é casado com a Sandra, dona do café Alpino em frente ao
correio, indo justamente em direção ao estabelecimento da amada, e com a
cara que ele deve usar para coalhar o leite dos queijos dele. O padre Joel
notou a minha distração, acompanhou o meu olhar e parou de falar. "Iiih,
fodeu!", disse o defensor dos bons costumes do planalto central. "É hoje que
o corno estoura uma veia".
Dito e feito: o peão suíço que a Sandra achou chique só porque era suíço
apeou da D-20, bateu na porta, olhou pelo buraco da fechadura, olhou por
debaixo da porta e começou a subir pela janela porque ninguém abriu a porta;
quando conseguiu chegar ao parapeito, já tinha umas vinte pessoas, entre
elas eu e o padre, tentando segurar o rapaz, enquanto a Ken, catarinense
namorada do Alexandre homeopata que é casado com a Célia que namora o Kojak
da Casa do Agricultor da esquina do beco da dona Sebastiana, gritava a
plenos pulmões pra dentro do café da Sandra: "Sandra, o Stefan tá aqui". O
Marquinho, recém chegado de Taubaté e cacho da Sandra, saiu dos fundos do
café pelo quintal do Gábor, o húngaro da Meta Computação Gráfica que anda
comendo a filha da Joana do Das Flô (a mesma -- a filha, não a Joana, que
é crente -- que antes foi o pivô da separação entre o prefeito e a
primeira-dama, que pegou os dois fazendo arte no gabinete do juiz) enquanto
a mulher dele está viajando, subiu na moto do Venturoso que estava dando
bobeira por ali e se arrancou. Enquanto isso, a Sandra, com a cara mais
lavada do mundo, abriu a porta, olhou em volta, viu o suição mais vermelho
que nunca no meio daquele povo todo segurando ele, voltou a entrar, fechou a
porta e a janela e não deu mais as caras. O queijeiro lançou um olhar
assassino na direção geral da rota de fuga do Marquinho, um olhar suspirante
na direção precisa das portas fechadas, entrou na D-20 e voltou pra Corumbá.
O público voltou pro que estava fazendo antes do fuzuê resmungando que suíço
é manso demais e que diabo!, nem uns tirinhos pra animar a tarde, e o padre
Joel perguntou:
-- O Ditinho da Lotérica costuma ter telefones pra alugar, já falou com ele?
Já, já falei. Aliás, a Mariângela falou, porque o Ditinho não vai com a
minha cara. Convidei o padre pra tomar café na minha casa, a Ken veio
apanhar mexerica no meu quintal, o Beto da casa ao lado viu o movimento e se
convidou pro café também, o Tilapa apareceu com uns biscoitos de nata da
irmã dele (prendaaada, a moça!), o Roque veio com a Mercedes trazer um
de presente um tapete que ela tinha acabado de tecer e a gente passou o
resto da tarde rindo da cara do suíço e do topete da Sandra.
O grande assunto da cidade, é claro, é o que que o suíço vai fazer. A Sandra
dá de ombros: "A fazenda é minha, onde é que ele vai fazer queijo se se
meter a besta?"
E ninguém mais pensa em me arrumar telefone. Ô suicinho inconveniente!
*****************
Dia 29 tenho uma reunião em São Paulo e estou pensando em chegar uns dois
dias antes, e sair uns dois dias depois.
*****************
Tim, o João Elias te ligou?
*****************
E por aqui fico. Mas volto.
Tomás
Olá, Gui,
voltei, mas continuo aqui. Quer dizer, não voltei, estou tentando sair. Ou
seja lá o que for.
Minhas voltas dependem do humor do vizinho que tem telefone, e do quanto ele
bebeu na noite anterior. O telefone que o Tilapa disse que ia me arrumar não
pode ser tirado do endereço onde está porque o assinante morreu e os
herdeiros não podem mexer em nada enquanto o inventário não acabar
(engraçado, quando a minha mãe morreu, o marido português dela pegou tudo o
que eles tinham, passou nos cobres e foi viver em Morro de São Paulo --
cadê o tal do inventário? Porque é que ele pode e o meu telefone não?). O
Djair pagou as prestações atrasadas do telefone dele e disse que, quando a
linha fosse religada, ele mandava transferir prà minha casa. Isso foi há
duas semanas e, até hoje, a Telegoiás não se lembrou de religar o telefone.
A mãe do Elísio das Pedras me aluga um telefone, se eu assinar um contrato
de um ano e pagar um salário mínimo por mês -- tô quase aceitando. Mas a
Telegoiás prometeu que vai instalar dois mil telefones na cidade até fins de
agosto, e o meu está nessa fila desde 1994, deve ser incluído no pacote.
Desde 1991 que não instalam uma única linha aqui.
Quem manda? Tanto lugar pra morar...
Mas ainda resta uma esperança. O Castelo passou aqui em casa e disse que vai
sair da casa dele e que se eu quiser ficar com ela é só dizer. A casa dele
não tem nenhuma jaboticabeira, mas tem mais mangueiras que a minha.
E-tem-te-le-fo-ne! Daqueles que fazem trintrim. O único problema é que fica
na rua Direita, a três casas da casa da Christiane, a morena linda do zóio
cor de mé que cometeu a imprudência de casar comigo quando morei aqui em
1993-94. E o Jãozico Lopes, um goianão chucro dimetrinoventa que é o atual
namorado da moça, já mandou avisar que se me vir rondando a rua Direita vai
servir o meu pinto fatiado misturado na ração da criação de filas dele. E
tendo em vista o número dos cães e o tamanho relativo das partes envolvidas,
acho que eles nem iam sentir a diferença na dieta, ó fim inglório!
E a Dora, mulher do Romeu padeiro da rua dos Pireneus, disse que vai tirar o
telefone que ela alugou pro tio que mora na rua do Carmo com a mulher e os
oito filhos mas tem amante e três filhos na rua Aurora e passar prà (com
acento grave, sissinhora Dona Clotilde) minha casa na rua da Prata porque o
Galeão -- o que é casado com a Cristina que é prima da Geni da pousada da
praça do coreto, ao lado da pizzaria do alemão casado com aquela paulista
doida devota de Maria, e sócia do Lionel, uma bicha velha francesa fazedora
de tiaras de noiva -- disse pra ela que o tio dela disse que ela devia ser
proibida de passar na ponte do Carmo porque cada nádega dela pesa mais que
duas carroças de areia do Gerardim Meiometro e a ponte anda meio capenga.
Anteontem, eu vinha subindo a rua Matutina e parei pra perguntar pro padre
Joel, aquele que ameaçou excomungar os donos de farmácia que vendessem
camisinha e mandou arrancar os bancos da praça pra ninguém namorar em frente
à matriz e foi processado pela prefeitura por destruição da propriedade
pública, como é que vai indo a vida na nova paróquia que arrumaram pra ele
em Parede dos Bernardos, um povoado aqui do município que fica a 74 km da
sede, e se por acaso ele não sabia de ninguém com um telefone pra alugar.
Ele começou a me contar a história de como tinha conseguido fechar o único
puteiro do povoado e de como os homens da região adoram ele. A história
estava boa, mas perdi mais da metade, porque vi passar por mim o Stefan
Gaehwiler, um peão suíço fazedor de queijo que mora em Corumbá (a de Goiás,
não a do Pantanal) e é casado com a Sandra, dona do café Alpino em frente ao
correio, indo justamente em direção ao estabelecimento da amada, e com a
cara que ele deve usar para coalhar o leite dos queijos dele. O padre Joel
notou a minha distração, acompanhou o meu olhar e parou de falar. "Iiih,
fodeu!", disse o defensor dos bons costumes do planalto central. "É hoje que
o corno estoura uma veia".
Dito e feito: o peão suíço que a Sandra achou chique só porque era suíço
apeou da D-20, bateu na porta, olhou pelo buraco da fechadura, olhou por
debaixo da porta e começou a subir pela janela porque ninguém abriu a porta;
quando conseguiu chegar ao parapeito, já tinha umas vinte pessoas, entre
elas eu e o padre, tentando segurar o rapaz, enquanto a Ken, catarinense
namorada do Alexandre homeopata que é casado com a Célia que namora o Kojak
da Casa do Agricultor da esquina do beco da dona Sebastiana, gritava a
plenos pulmões pra dentro do café da Sandra: "Sandra, o Stefan tá aqui". O
Marquinho, recém chegado de Taubaté e cacho da Sandra, saiu dos fundos do
café pelo quintal do Gábor, o húngaro da Meta Computação Gráfica que anda
comendo a filha da Joana do Das Flô (a mesma -- a filha, não a Joana, que
é crente -- que antes foi o pivô da separação entre o prefeito e a
primeira-dama, que pegou os dois fazendo arte no gabinete do juiz) enquanto
a mulher dele está viajando, subiu na moto do Venturoso que estava dando
bobeira por ali e se arrancou. Enquanto isso, a Sandra, com a cara mais
lavada do mundo, abriu a porta, olhou em volta, viu o suição mais vermelho
que nunca no meio daquele povo todo segurando ele, voltou a entrar, fechou a
porta e a janela e não deu mais as caras. O queijeiro lançou um olhar
assassino na direção geral da rota de fuga do Marquinho, um olhar suspirante
na direção precisa das portas fechadas, entrou na D-20 e voltou pra Corumbá.
O público voltou pro que estava fazendo antes do fuzuê resmungando que suíço
é manso demais e que diabo!, nem uns tirinhos pra animar a tarde, e o padre
Joel perguntou:
-- O Ditinho da Lotérica costuma ter telefones pra alugar, já falou com ele?
Já, já falei. Aliás, a Mariângela falou, porque o Ditinho não vai com a
minha cara. Convidei o padre pra tomar café na minha casa, a Ken veio
apanhar mexerica no meu quintal, o Beto da casa ao lado viu o movimento e se
convidou pro café também, o Tilapa apareceu com uns biscoitos de nata da
irmã dele (prendaaada, a moça!), o Roque veio com a Mercedes trazer um
de presente um tapete que ela tinha acabado de tecer e a gente passou o
resto da tarde rindo da cara do suíço e do topete da Sandra.
O grande assunto da cidade, é claro, é o que que o suíço vai fazer. A Sandra
dá de ombros: "A fazenda é minha, onde é que ele vai fazer queijo se se
meter a besta?"
E ninguém mais pensa em me arrumar telefone. Ô suicinho inconveniente!
*****************
Dia 29 tenho uma reunião em São Paulo e estou pensando em chegar uns dois
dias antes, e sair uns dois dias depois.
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Tim, o João Elias te ligou?
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E por aqui fico. Mas volto.
Tomás
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