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segunda-feira, abril 26, 2004
Uma semana divertida, ou, Alguém quer biscoito de queijo?
[Texto de 16 de setembro de 2000]
Eu devia ter sabido logo de cara. Cheguei a Goiânia vindo de São Paulo depois de um mês de ausência e, entre um ônibus e outro, preparei o meu "alô" mais meloso e liguei prà Ângela. "Ah, oi", ela respondeu. E foi logo tratando de emendar: "Olha, eu estive pensando...".
Mais uma. Quer dizer, menos uma. É a vida, umas vão, outras vêm. Para provar que isso é verdade, quando entrei em casa em Pirenópolis encontrei passado por debaixo da porta um recado da Flávia "Pitéu do Cerrado" Curado, que tinha sabido pela Marly que tinha sabido pela Guta que tinha sabido pela Renata que tinha sabido pelo Reinaldo que eu estava chegando e queria me convidar prum almoço na casa dela. Foi o tempo de deixar a mala no quarto, tomar um banho, tirar a última camisa limpa do armário (aquela roxa que eu apareço vestindo em tudo que é foto) e correr pros braços da Flávia, a Ângela vai ver só, hoje à noite eu nem lembro mais que ela existe. No caminho, caiu um botão da camisa, bem o do meio que ajuda a disfarçar a barriga. Mas tudo bem, quando eu cheguei, a casa da Flavia estava abarrotada e o pitéu já tinha sido servido pro Luís Marcos, um (ainda por cima!) tradutor de Brasília, de modo que barriga ou não não ia fazer diferença nenhuma. No meio do regabofe, senti uma coisa esquisita na boca, remexi e quase desmaiei: meu incisivo lateral superior direito tinha quebrado quase na base. Assim, sem mais nem menos, paf!, banguela. Levantei, saí de fininho, comprei uma garrafa de cachaça e fui afogar as mágoas sozinho em casa. Basta eu ir a Brasília e tapar o buraco no consultório da Jussara e ninguém me vê assim.
Na manhã seguinte, o que eu achei que era ressaca foi ficando cada vez mais esquisito, tão esquisito que eu já estava começando a jurar que nunca mais bebia sozinho quando cheguei na Mariângela para a costumeira bóia grátis de domingo e, em vez de me dar comida, ela me enfiou na cama e me enfiou um termômetro debaixo do braço, claro que depois de rir do buraco na minha boca e chamar até a cozinheira pra ver. Quarenta de febre. O Lulão veio me ver, apertou aqui, hmmm, apalpou ali, haaa, auscultou, perguntou, me levou pro raioxis e condenou: bronquecstasia. Ou você pára de fumar hoje, ou...
Menos um. Só me resta a pinga, agora. E adeus próteses jussarianas, viagem só daqui a uma semana, pelo menos. É o que dá eu me meter com médicos que não fumam. E o pior é que a notícia se espalhou, e meia cidade veio me visitar pra ver se eu estava precisando de alguma coisa, nunca vi tanto biscoito de queijo e tanta falta de imaginação pra dar presente pra doente. E claro, a primeira coisa que todos diziam era, "nossa, o que aconteceu com o seu dente?" Antes da hora do almoço da segunda-feira eles já nem se davam ao trabalho de vir me ver, telefonavam, até de Goiânia ligaram. Pra saber se era verdade que eu tinha ficado banguela. Também ligaram de São Paulo, mas foi pra avisar que o trabalho de 27 mil palavras a 16 centavos por palavra e pagamento contra entrega tinha sido cancelado.
Tudo bem, pensou a Poliana que há em mim, melhor cancelarem antes de eu não conseguir entregar. É melhor mesmo eu ficar de molho, parece que eles adivinharam. Seja como for, na sexta me pagam o trabalho que entreguei no dia 15 do mês passado prum pessoal de Curitiba, uma merrequinha de 580 reais, mas com isso dá até para fazer extravagâncias aqui em Pirenópolis até sair o trabalho do Rio. Está tudo bem, nada de pânico.
Na terça de manhã cortaram a minha água, antes de eu tomar banho. A minha sorte é que estava por aqui o meu sobrinho xavante mestiço de huno, suspenso por ter dado um tapa na mão da professora de religião porque ele estava saindo da sala antes de começar a aula e ela resolveu arrastá-lo na marra de volta à carteira, some habits die hard. Escrevi e despachei por ele uma carta indignada pro Coxó da Saneago explicando que estava doente e não podia ficar sem água e que não tinha pago a conta porque estava viajando, e lembrando que o corte de serviços essenciais é proibido sob qualquer circunstância e que ia pagar assim que ele mandasse religar a água. Ele mandou dizer pelo Diogo que ia religar e cumpriu a promessa. No dia seguinte.
Eu também cumpri a minha promessa. Também com um dia de atraso. Na quarta, portanto, com a água de volta, fui pro banheiro, tirei a roupa, abri a torneira, testei a temperatura da água e ia entrar no banho quando o chuveiro desligou. Nem perdi tempo pensando. Me enrolei na toalha, corri prà porta, abri-a com um chute metafórico pra dentro, apontei o dedo e gritei: "se você não parar já com isso eu chamo a polícia!". O Djair da Celg, aquele que ia me alugar o telefone, lembram?, deixou cair a chave de fenda e quis argumentar, "mas a conta não foi paga...". Repeti a carta da Saneago ao vivo em em cores pra ele, parado na calçada só de toalha, e o coitado ficou tão atrapalhado que religou tudo, recolheu as ferramentas e foi embora. E eu voltei pro banho triunfante, sob o olhar boquiaberto dos passantes. "O banguela é brabo, sô!". Depois fui pagar a conta de luz. E claro que, depois disso, a febre...
Na quinta de manhã acabei de ler os livros que tinha comprado em São Paulo para o mês todo. Depois do almoço, ouvi uma algazarra no quintal, fui investigar e descobri que um bando de pelo menos vinte macacos-prego estava sistematicamente dando cabo das mangas para as quais eu tinha tantos planos. E os sacaninhas deixaram de lado a manga espada, muito mais madura, e foram direto para os dois pés de manga rosa. Não sobrou uma. Depois, a Jussara telefonou pra avisar que estava indo pra Salvador e só volta em outubro. Bom, lá se vão duzentos reais dos 580 que eu recebo amanhã, faço a prótese com o Netinho aqui mesmo em Piri. Menos cem que devo à Mariângela, se eu me apertar um pouquinho, comer os Cheetos e a gelatina que sobraram da passagem das crianças por aqui em julho e guardar os biscoitos de queijo no congelador, dá pra agüentar até o fim do mês. Lá pràs três, telefonema da Telegoiás: "Sr. Tomás? O nosso departamento técnico concluiu que a sua conexão só pode ser instalada em meados de novembro". Eles tinham prometido pra fins de setembro.
No fim da tarde, a Sandra e a Ken chegaram pra fazer companhia pro nenê que tá dodói, trazendo a TV da Sandra e o vídeo da Ken e três fitas alugadas. Ueba. Peguei a carteira, tirei os últimos trinta reais e despachei a Sandra pro Godinho pra comprar vinho e queijo e torradinhas enquanto ficava fazendo olhinhos prà Ken, de repente já quase sem febre, que milagre. A Sandra chegou com uma garrafa de Casillero del Diablo, quatro pacotes de torradinhas, um gorgonzola do Godinho, um emental e uma ricota do Stefan que ela passou para pegar no restaurante dela, fizemos pipoca, fizemos patê de ricota com alho, oba, vai cair um toró jajá, oba, a Ken está definitivamente mal intencionada, oba, que mané Ângela que nada, quem precisa dela, xiii, logo agora você foi se empanturrar de alho?, além de banguela, fedorento?
Instalamo-nos no sofá, claro que eu no meio, ligamos a televisão, abrimos o vinho, brindamos, disparamos a primeira fita ("Janela Indiscreta", já vi umas oito vezes, mas, com aquela loira do lado de lá e estas duas morenas nos flancos, quem liga?), assistimos aos trailers todos e BAAAAAMMM!, um trovão, começou o toró.
E acabou a luz. Quando voltou, três horas depois, a Ken estava profundamente adormecida e eu já tinha confessado à Sandra que estava mesmo era com saudades da Ângela. As duas foram embora e eu assisti Janela Indiscreta pela nona vez, sozinho. Sexta de manhã, acordei de ressaca, já não se pode mais confiar nem no Casillero, até isso o Pinochet conseguiu estragar, dois copinhos e vejam só. Mas sem febre, todo lépido. Telefonei prà Mariângela e pro Reinaldo, convidei os dois para ir tomar café da manhã comigo na Dona Sebastiana por conta dos 580, enchemos o rabo de suco de mexerica e pastel de palmito e pão de queijo e café com leite, penduramos a conta alegremente e fomos pro banco.
Nada de dinheiro. Telefonemas frenéticos para Curitiba. Pagamento? Nããão, Sr. Tomás, não temos nada aqui, quando foi que o senhor entregou a tradução? Dia 15 de agosto? Aaah, então é isso, o senhor se confundiu: são trinta dias úteis...
Desliguei com toda a calma. Dei um murro na árvore ao lado do orelhão. O fecho da pulseira do relógio quebrou. O relógio voou longe, o cristal trincou. Voltei pra casa, com cuidado para não passar em frente à dona Sebastiana, tirei o colete, joguei no sofá, fui ao banheiro, fui à cozinha, peguei o resto dos queijos e as torradas, preparei um suco de laranja, voltei prà sala, liguei a TV e o vídeo, fui arrumando os bebes e comes na mesinha enquanto ia arrancando as botas pisando com uma no calcanhar da outra; uma saiu sem problemas, a outra foi mais teimosa e puxei com mais força: o pé subiu, com bota e tudo, mas a sola ficou no chão. Fiquei ali parado, olhando pro pé descalço completamente e pro outro dentro do jacaré pra atrás que tinha virado a minha bota favorita, pensando que precisava cortar as unhas. Liguei o dane-se no máximo e me joguei no sofá. Oops, o colete. Levantei a bunda, tirei o colete de lá debaixo, liguei o vídeo com o controle remoto. Onde foi que eu deixei os óculos? Voltei ao banheiro, à cozinha, e nada. Onde é que eu fui deixar a porra dos óculos, estava com eles quando falei com o Beto, aqui em frente à porta, só tirei pra limpar na barra da camiseta e guardei...
...no bolso do colete.
São cinco e vinte da manhã de sábado e estou escrevendo na cama, onde estou desde as onze da noite de ontem, quando cheguei da casa da Mariângela e reparei que tinha deixado lá as 58 páginas do fax com o original da tradução que eu tinha planejado rever durante a noite. Juro que até a meia-noite, quando a semana acaba, só levanto desta cama para ir fumar escondido de mim mesmo no banheiro.
Eu devia ter sabido logo de cara. Cheguei a Goiânia vindo de São Paulo depois de um mês de ausência e, entre um ônibus e outro, preparei o meu "alô" mais meloso e liguei prà Ângela. "Ah, oi", ela respondeu. E foi logo tratando de emendar: "Olha, eu estive pensando...".
Mais uma. Quer dizer, menos uma. É a vida, umas vão, outras vêm. Para provar que isso é verdade, quando entrei em casa em Pirenópolis encontrei passado por debaixo da porta um recado da Flávia "Pitéu do Cerrado" Curado, que tinha sabido pela Marly que tinha sabido pela Guta que tinha sabido pela Renata que tinha sabido pelo Reinaldo que eu estava chegando e queria me convidar prum almoço na casa dela. Foi o tempo de deixar a mala no quarto, tomar um banho, tirar a última camisa limpa do armário (aquela roxa que eu apareço vestindo em tudo que é foto) e correr pros braços da Flávia, a Ângela vai ver só, hoje à noite eu nem lembro mais que ela existe. No caminho, caiu um botão da camisa, bem o do meio que ajuda a disfarçar a barriga. Mas tudo bem, quando eu cheguei, a casa da Flavia estava abarrotada e o pitéu já tinha sido servido pro Luís Marcos, um (ainda por cima!) tradutor de Brasília, de modo que barriga ou não não ia fazer diferença nenhuma. No meio do regabofe, senti uma coisa esquisita na boca, remexi e quase desmaiei: meu incisivo lateral superior direito tinha quebrado quase na base. Assim, sem mais nem menos, paf!, banguela. Levantei, saí de fininho, comprei uma garrafa de cachaça e fui afogar as mágoas sozinho em casa. Basta eu ir a Brasília e tapar o buraco no consultório da Jussara e ninguém me vê assim.
Na manhã seguinte, o que eu achei que era ressaca foi ficando cada vez mais esquisito, tão esquisito que eu já estava começando a jurar que nunca mais bebia sozinho quando cheguei na Mariângela para a costumeira bóia grátis de domingo e, em vez de me dar comida, ela me enfiou na cama e me enfiou um termômetro debaixo do braço, claro que depois de rir do buraco na minha boca e chamar até a cozinheira pra ver. Quarenta de febre. O Lulão veio me ver, apertou aqui, hmmm, apalpou ali, haaa, auscultou, perguntou, me levou pro raioxis e condenou: bronquecstasia. Ou você pára de fumar hoje, ou...
Menos um. Só me resta a pinga, agora. E adeus próteses jussarianas, viagem só daqui a uma semana, pelo menos. É o que dá eu me meter com médicos que não fumam. E o pior é que a notícia se espalhou, e meia cidade veio me visitar pra ver se eu estava precisando de alguma coisa, nunca vi tanto biscoito de queijo e tanta falta de imaginação pra dar presente pra doente. E claro, a primeira coisa que todos diziam era, "nossa, o que aconteceu com o seu dente?" Antes da hora do almoço da segunda-feira eles já nem se davam ao trabalho de vir me ver, telefonavam, até de Goiânia ligaram. Pra saber se era verdade que eu tinha ficado banguela. Também ligaram de São Paulo, mas foi pra avisar que o trabalho de 27 mil palavras a 16 centavos por palavra e pagamento contra entrega tinha sido cancelado.
Tudo bem, pensou a Poliana que há em mim, melhor cancelarem antes de eu não conseguir entregar. É melhor mesmo eu ficar de molho, parece que eles adivinharam. Seja como for, na sexta me pagam o trabalho que entreguei no dia 15 do mês passado prum pessoal de Curitiba, uma merrequinha de 580 reais, mas com isso dá até para fazer extravagâncias aqui em Pirenópolis até sair o trabalho do Rio. Está tudo bem, nada de pânico.
Na terça de manhã cortaram a minha água, antes de eu tomar banho. A minha sorte é que estava por aqui o meu sobrinho xavante mestiço de huno, suspenso por ter dado um tapa na mão da professora de religião porque ele estava saindo da sala antes de começar a aula e ela resolveu arrastá-lo na marra de volta à carteira, some habits die hard. Escrevi e despachei por ele uma carta indignada pro Coxó da Saneago explicando que estava doente e não podia ficar sem água e que não tinha pago a conta porque estava viajando, e lembrando que o corte de serviços essenciais é proibido sob qualquer circunstância e que ia pagar assim que ele mandasse religar a água. Ele mandou dizer pelo Diogo que ia religar e cumpriu a promessa. No dia seguinte.
Eu também cumpri a minha promessa. Também com um dia de atraso. Na quarta, portanto, com a água de volta, fui pro banheiro, tirei a roupa, abri a torneira, testei a temperatura da água e ia entrar no banho quando o chuveiro desligou. Nem perdi tempo pensando. Me enrolei na toalha, corri prà porta, abri-a com um chute metafórico pra dentro, apontei o dedo e gritei: "se você não parar já com isso eu chamo a polícia!". O Djair da Celg, aquele que ia me alugar o telefone, lembram?, deixou cair a chave de fenda e quis argumentar, "mas a conta não foi paga...". Repeti a carta da Saneago ao vivo em em cores pra ele, parado na calçada só de toalha, e o coitado ficou tão atrapalhado que religou tudo, recolheu as ferramentas e foi embora. E eu voltei pro banho triunfante, sob o olhar boquiaberto dos passantes. "O banguela é brabo, sô!". Depois fui pagar a conta de luz. E claro que, depois disso, a febre...
Na quinta de manhã acabei de ler os livros que tinha comprado em São Paulo para o mês todo. Depois do almoço, ouvi uma algazarra no quintal, fui investigar e descobri que um bando de pelo menos vinte macacos-prego estava sistematicamente dando cabo das mangas para as quais eu tinha tantos planos. E os sacaninhas deixaram de lado a manga espada, muito mais madura, e foram direto para os dois pés de manga rosa. Não sobrou uma. Depois, a Jussara telefonou pra avisar que estava indo pra Salvador e só volta em outubro. Bom, lá se vão duzentos reais dos 580 que eu recebo amanhã, faço a prótese com o Netinho aqui mesmo em Piri. Menos cem que devo à Mariângela, se eu me apertar um pouquinho, comer os Cheetos e a gelatina que sobraram da passagem das crianças por aqui em julho e guardar os biscoitos de queijo no congelador, dá pra agüentar até o fim do mês. Lá pràs três, telefonema da Telegoiás: "Sr. Tomás? O nosso departamento técnico concluiu que a sua conexão só pode ser instalada em meados de novembro". Eles tinham prometido pra fins de setembro.
No fim da tarde, a Sandra e a Ken chegaram pra fazer companhia pro nenê que tá dodói, trazendo a TV da Sandra e o vídeo da Ken e três fitas alugadas. Ueba. Peguei a carteira, tirei os últimos trinta reais e despachei a Sandra pro Godinho pra comprar vinho e queijo e torradinhas enquanto ficava fazendo olhinhos prà Ken, de repente já quase sem febre, que milagre. A Sandra chegou com uma garrafa de Casillero del Diablo, quatro pacotes de torradinhas, um gorgonzola do Godinho, um emental e uma ricota do Stefan que ela passou para pegar no restaurante dela, fizemos pipoca, fizemos patê de ricota com alho, oba, vai cair um toró jajá, oba, a Ken está definitivamente mal intencionada, oba, que mané Ângela que nada, quem precisa dela, xiii, logo agora você foi se empanturrar de alho?, além de banguela, fedorento?
Instalamo-nos no sofá, claro que eu no meio, ligamos a televisão, abrimos o vinho, brindamos, disparamos a primeira fita ("Janela Indiscreta", já vi umas oito vezes, mas, com aquela loira do lado de lá e estas duas morenas nos flancos, quem liga?), assistimos aos trailers todos e BAAAAAMMM!, um trovão, começou o toró.
E acabou a luz. Quando voltou, três horas depois, a Ken estava profundamente adormecida e eu já tinha confessado à Sandra que estava mesmo era com saudades da Ângela. As duas foram embora e eu assisti Janela Indiscreta pela nona vez, sozinho. Sexta de manhã, acordei de ressaca, já não se pode mais confiar nem no Casillero, até isso o Pinochet conseguiu estragar, dois copinhos e vejam só. Mas sem febre, todo lépido. Telefonei prà Mariângela e pro Reinaldo, convidei os dois para ir tomar café da manhã comigo na Dona Sebastiana por conta dos 580, enchemos o rabo de suco de mexerica e pastel de palmito e pão de queijo e café com leite, penduramos a conta alegremente e fomos pro banco.
Nada de dinheiro. Telefonemas frenéticos para Curitiba. Pagamento? Nããão, Sr. Tomás, não temos nada aqui, quando foi que o senhor entregou a tradução? Dia 15 de agosto? Aaah, então é isso, o senhor se confundiu: são trinta dias úteis...
Desliguei com toda a calma. Dei um murro na árvore ao lado do orelhão. O fecho da pulseira do relógio quebrou. O relógio voou longe, o cristal trincou. Voltei pra casa, com cuidado para não passar em frente à dona Sebastiana, tirei o colete, joguei no sofá, fui ao banheiro, fui à cozinha, peguei o resto dos queijos e as torradas, preparei um suco de laranja, voltei prà sala, liguei a TV e o vídeo, fui arrumando os bebes e comes na mesinha enquanto ia arrancando as botas pisando com uma no calcanhar da outra; uma saiu sem problemas, a outra foi mais teimosa e puxei com mais força: o pé subiu, com bota e tudo, mas a sola ficou no chão. Fiquei ali parado, olhando pro pé descalço completamente e pro outro dentro do jacaré pra atrás que tinha virado a minha bota favorita, pensando que precisava cortar as unhas. Liguei o dane-se no máximo e me joguei no sofá. Oops, o colete. Levantei a bunda, tirei o colete de lá debaixo, liguei o vídeo com o controle remoto. Onde foi que eu deixei os óculos? Voltei ao banheiro, à cozinha, e nada. Onde é que eu fui deixar a porra dos óculos, estava com eles quando falei com o Beto, aqui em frente à porta, só tirei pra limpar na barra da camiseta e guardei...
...no bolso do colete.
São cinco e vinte da manhã de sábado e estou escrevendo na cama, onde estou desde as onze da noite de ontem, quando cheguei da casa da Mariângela e reparei que tinha deixado lá as 58 páginas do fax com o original da tradução que eu tinha planejado rever durante a noite. Juro que até a meia-noite, quando a semana acaba, só levanto desta cama para ir fumar escondido de mim mesmo no banheiro.
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